VAMOS NO TITANIC E A ORQUESTRA AINDA TOCA

Bom dia, meus caros. Desculpem as más notícias, mas estamos tramados. O que aí vem do ponto de vista económico é muito pior do que aquilo que nos aconteceu entre 2011 e 2015. E os sinais estão todos aí.
O primeiro é que a pandemia não acaba em Abril. O pico só será atingido em Maio, segundo a diretora geral de Saúde. Ora se a senhora estiver certa, então o que isso quer dizer é que só lá para o final de Julho é que estaremos outra vez no planalto da normalidade em matéria de saúde. Ou seja, pelo menos quatro meses do ano estarão perdidos do ponto de vista económico.
Nestas coisas de fazer contas dá sempre jeito um economista. E Augusto Mateus, que foi ministro da Economia e é um excelente economista fez: por cada mês a mês e meio em que 60% (note bem, 60%) da economia esteja congelada para evitar a propagação do virus, o custo é de 8 mil milhões a nove mil milhões de euros. Se toda a economia for obrigada a ficar congelada, como está a acontecer em Itália, o custa ronda os 15 mil milhões a 16 mil milhões.
A partir daqui é pegar na calculadora. Ou seja, na hipótese mais benigna (congelamento de 60% da economia e um custo de 8 mil milhões por mês e meio nessa situação), teríamos um encargo total de 20 mil milhões. Se o valor for por cada mês, então o custo total será de 32 mil milhões. Se o encargo for de 9 mil milhões por cada mês e meio, então o valor será de 22,5 mil milhões. Se for por cada mês, então o encargo será de 36 mil milhões. Mas se toda a economia paralisar, então no caso mais extremo o custo ascenderá a 64 mil milhões.
Ou seja, para um PIB que em 2019 foi de 212 mil milhões de euros, do que estamos a falar é de um empobrecimento do país entre 10% e 30%. Em qualquer dos casos, vamos no Titanic, a orquestra continua a tocar e ainda não demos conta que vamos bater brutalmente contra um icebergue – e a seguir afundar-nos inevitavelmente, o que provocará inúmeras vitimas. É verdade que a Comissão Europeia, o BCE e os governos já começaram a lançar os botes à água. Contudo, o Conselho Europeu resiste a dar ordem para o porta-aviões, ou seja, a emissão de eurobonds avançar. E isso é decisivo porque todos os países vão sair desta situação com as suas finanças profundamente desequilibradas e vão ter de recorrer massivamente aos mercados internacionais. Se não tiverem uma rede que lhes permita esse financiamento, a taxas de juro e prazos de pagamento bastante razoáveis, então o inferno espera por nós: nova crise das dívidas soberanas, pedidos de resgate, programas de austeridade, recuperação ainda mais lenta e mais dolorosa que na crise anterior.
E que o caso é grave constata-se por até o Governador do Banco de Portugal, o sempre discretíssimo e euro-obedientissimo Carlos Costa, ter vindo defender a necessidade de emissão dos eurobonds, já que «nenhum país está preparado para uma crise desta natureza» e sem a partilha de custos, ou seja, a mutualização da dívida com a emissão dos títulos europeus de dívida, a zona euro corre «o risco de quebrar».
Posto isto, só nos resta seguir a máxima do marquês de Pombal após o terramoto de 1755: tratar dos feridos, enterrar os mortos, cuidar dos vivos. E esperar que a crise passe mesmo até ao final de Julho, porque senão será sempre a acumular prejuízos. Uma coisa é certa, como disse o primeiro-ministro: ninguém vai sair disto incólume, nem os trabalhadores que perderão poder de compra e muitos o próprio emprego, nem as empresas, que verão desaparecer clientes e negócios a uma velocidade vertiginosa, levando muitas delas a ter de fechar as portas.
Preparemo-nos pois para o embate. Vai ser duríssimo – e nada bonito de se ver.