UM AVIÃO DE HIPOCRISIA A SOBREVOAR O NOVO AEROPORTO

A história da construção de um novo aeroporto é toda ela lamentável e uma enorme sucessão de hipocrisias. No final, se sempre se avançar para a solução do Montijo, o país ficará pessimamente servido.

Como se chegou aqui? Pois, em primeiro lugar porque a construção de um novo aeroporto se tornou uma arma de arremesso político entre PSD e PS, quando o projeto é eminentemente nacional e uma necessidade imperiosa (e é bom lembrar que os primeiros estudos começaram em 1969).

Depois, porque a concessão por 50 anos da ANA, que gere as infraestruturas aeroportuárias nacionais, aos franceses da Vinci colocou na mão destes a decisão de fazer quando, onde e o quê no que toca ao novo aeroporto. E a Vinci não quer sair da Portela, assim como a TAP, cujo presidente já disse que a companhia nunca voará para o Montijo.

Em terceiro, porque o primeiro governo de António Costa deixou arrastar o processo durante quatro anos, permitindo que se sedimentasse a ideia de que a solução inevitável seria a Portela mais um (e o um era o aeroporto do Montijo, apesar de nunca, em nenhum estudo anterior – e houve muitos – o Montijo ter alguma vez sido equacionado como primeira opção ou sequer como opção).

E agora que a Portela tem de rejeitar dezenas milhares de passageiros, descobre-se de repente que sem o parecer positivo de todos os municípios afetados não é possível construir o Montijo – e o ministro Pedro Nuno Santos tem a brilhante ideia de mudar a lei para retirar esse poder aos municípios.

Digamos que até pode ter razão já que o interesse local não se pode sobrepor ao interesse nacional. Mas não se mudam as regras a meio do jogo e quando nos dá jeito, além do que esta é mais uma prova de quão atabalhoada e atamancada é a opção pelo Montijo.

E agora? Pois, agora o Montijo nunca avançará e das duas uma: ou se insiste em construir um aeroporto complementar à Portela (e nesse caso a solução Alverca parece apresentar muitas vantagens sobre o Montijo) ou se avança para aquilo que o país realmente precisa: um novo aeroporto internacional.

E para esse projeto, o que está mais à mão é Alcochete. Tem o parecer em matéria de avaliação ambiental, válido até dezembro de 2020. Tem o parecer em matéria de avaliação ambiental estratégica, ou seja, em comparação com outras alternativas. Tem o parecer positivo de todas as câmaras afetadas. Afeta muito menos gente. A pista pode estender-se de forma a cumprir todas as regras de segurança. E pode ser feito por módulos à medida que a Portela vá sendo desativada.

O país demorou 40 anos a debater os benefícios e malefícios da construção do Alqueva. Hoje todos reconhecem os inúmeros impactos positivos que o Alqueva trouxe ao Alentejo e ao país.

Está na hora de António Costa e Rui Rio se sentarem à mesa e tomarem a melhor decisão para o país em matéria de construção de um grande aeroporto internacional. E a melhor solução que neste momento têm à disposição é claramente Alcochete.