SAÚDE A MELHORAR, ECONOMIA A PIORAR

Começam a chegar sinais encorajadores de Itália e Espanha. Aparentemente o ponto crítico já terá passado. Também em Portugal podemos ter já atingido o pico da crise e estarmos agora numa fase de redução da contaminação. Em contrapartida, as más notícias na frente económica começam a avolumar-se como um tsunami no horizonte.

 

Já há quase 900 mil portugueses a receber apoios do Estado, entre trabalhadores atingidos pelos lay-off (556 mil), trabalhadores independentes (mais de 100 mil), subsídios por apoios à família e baixas por isolamento profilático. Na restauração e hotelaria, 75% das empresas estão encerradas, das quais 70% dizem respeito ao alojamento turístico e 30% à restauração. Mais de metade das empresas do setor recorreram ao lay-off – e destas, 70% afirma que não vai conseguir pagar salários em Abril se não receber até ao fim do mês os apoios da Segurança Social. Mais grave, quase 80% das empresas afirma não ter recorrido aos apoios do Estado por não se adequarem às suas necessidades dado acrescentarem dívida à dívida que já tem e que não conseguirão pagar. Mais de 90% dos hotéis em Portugal pretendem recorrer ao regime de lay-off simplificado criado pelo Governo, envolvendo um total de 51 mil trabalhadores. 

 

Quanto a empresas já houve 33.366 que recorreram ao lay-off e há várias que estão literalmente paradas, algo impensável há um mês. A TAP é o caso mais evidente, mas há muitas outras, como a Autoeuropa (Volkswagen) ou a fábrica de Mangualde da PSA (Peugeot/Citroen), que pesam significativamente nas exportações do país. A ANA, que gere as infraestruturas aeroportuárias do país, também está parada dado o fecho das fronteiras aos voos aéreos. Só no distrito da Guarda 500 empresas recorreram a este mecanismo. Na Madeira, 533 empresas acionaram o lay-off, entre as quais a Empresa de Cervejas da Madeira, uma das maiores da região. Nos Açores já há 346 candidaturas a este apoio do Estado.

 

Os economistas fazem contas. Na Alemanha a economia pode afundar quase 10% no segundo trimestre, algo nunca visto desde a II Guerra Mundial. Em França, o Produto Interno Bruto caiu 6% no primeiro trimestre, o pior resultado desde 1945. Em Portugal, o Banco de Portugal estima que a recessão que vai atingir a economia varia entre -3,7% e -5,7%, devendo o desemprego chegar aos 10%. O economista Francisco Louçã admite que a recessão pode oscilar entre -5% e -10%. O ISEG – Instituto Superior de Economia e Gestão, prevê uma recessão entre -4 e -8%, desde que a fase mais restritiva não ultrapasse os dois meses. O economista Daniel Bessa considera que a atual situação económica, decorrente da pandemia, é pior do que uma “situação de guerra, quer em termos de paragem de produção, quer no que se refere à capacidade de recuperação”. E sublinha que “esta é seguramente a crise mais grave por que passou o mundo”.

 

Ora é com este pano de fundo que os ministros das Finanças do Eurogrupo se voltam a reunir hoje para tentar um acordo sobre os apoios a conceder às empresas, às famílias e aos Estados membros da zona euro. Já é evidente que não haverá a mutualização da dívida, através da emissão de eurobonds, devido à oposição intransigente da Holanda, apoiada pela Finlândia e Áustria e, de uma forma menos rígida, pela Alemanha. Mas agora a Holanda quer também impor regras e condicionalismos nos financiamentos do Mecanismo Europeu de Estabilidade, no valor de 240 mil milhões de euros, aos quais Portugal só terá acesso a 4 mil milhões (uma soma bastante irrisória para aquilo que previsivelmente vamos necessitar), ou seja, programas de reestruturação das economias, à semelhança do que aconteceu durante a crise das dívidas soberanas em 2011.

 

A Itália não aceita e nenhum dos países mais ameaçados por esta crise deve aceitar. Trata-se de uma chantagem inadmissível e uma completa cegueira relativamente ao que está em jogo, do ponto de vista económico, no pós-crise. E se a Europa tiver que rachar, então que rache agora – e que os holandeses sejam responsabilizados por isso. De outro modo, a União irá paulatinamente dividir-se entre um norte rico e poderoso e um sul cada vez mais pobre e indigente, rarefeito em termos de população jovem e altamente qualificada e de indústrias vibrantes e inovadoras, antes depósito de velhos e de atividades pouco dinâmicas e sofisticadas. Não são esses os princípios fundacionais da União Europeia, não são esses os objetivos que estiveram na base dos sucessivos alargamentos, não é isso que tornará a Europa um gigante político no plano mundial.