PONHAM AS ROTATIVAS A FUNCIONAR JÁ!

Depois da pandemia, o tsunami económico. As famílias portuguesas perderam 3,9 mil milhões de euros de rendimento disponível desde o início da crise, segundo a Deco. Há mais de meio milhão, quase 600 mil, pedidos de moratórias de crédito aos bancos. O primeiro-ministro disse que temos de nos preparar para dois anos muito duros. A recuperação não vai ser em U e muito menos em V. Vai ser em L. L de lenta e longa. E muito dolorosa.

Os optimistas de serviço podem meter as violas no saco. Estamos apenas a entrever a hecatombe económica que temos pela frente. Haverá ainda quem se lembre do que se passou durante e nos primeiros anos após a II Guerra Mundial. O que vamos viver vai ser algo muito similar. Desculpem as palavras mas não é pessimismo, é realismo. O Presidente da República já sugeriu ao Governo que prolongue o lay-off para além de Setembro. O problema é que vai ser necessário prolongar durante muito tempo os apoios públicos às empresas e aos cidadãos para não acabarmos na terra do nunca. E não há suficiente dinheiro público nacional para suportar indefinidamente a economia e os cidadãos.

É por isso que os apoios já anunciados pela União Europeia estão muito aquém do que vai ser necessário para enfrentar a mais terrível situação económica que o Velho Continente já viveu desde 1945, quando o Plano Marshall, financiado pelos americanos, foi fundamental para reconstruir a economia europeia. Veja-se o que se passa nos Estados Unidos. Depois de um pacote de 3 biliões de dólares já se fala na necessidade de ele ser aumentado para suportar a economia. Por isso, os 500 mil milhões anunciado por Macron e Merkel, quando antes se falava em 1,5 biliões, são suficientes para tapar a cova de um dente mas não para mais.

O modelo em que assentou o crescimento económico português desde 2015 colapsou. O turismo evaporou-se e não voltará tão cedo. Todas as atividades a montante ou a jusante estão condenadas a penar as passas do Algarve: agências de viagens, turismo rural, hotelaria, restauração, redes de transporte, eventos musicais, artísticos e desportivos, construção e recuperação de habitações, aluguer de curta duração, guias turísticos, receitas de monumentos e museus… Por exemplo, as receitas de algumas câmaras, que aumentaram exponencialmente com as taxas turísticas, vão reduzir-se drasticamente.

Quanto às exportações, refúgio para onde se voltaram muitas empresas durante a crise de 2011-2015, também aí as portas estão fechadas. Todos os nossos principais mercados reduziram drasticamente as importações e mesmo setores tão bem sucedidos nos últimos anos como a metalurgia e a metalomecânica já vieram a público pedir igualmente apoio ao Estado.

E alguém imaginava que um ministro pudesse admitir que nenhuma solução pode ser afastada no caso  da TAP, nem mesmo a insolvência? Ou que mesmo que não se vá por aí, a empresa tenha de reduzir em cerca de 30% a sua frota e o número de trabalhadores?

É por tudo isto que ou Bruxelas coloca as rotativas a  funcionar e distribui dinheiro em grande quantidade por todos os Estados membros ou, do ponto de vista económico, os dois próximos anos serão os piores das nossas vidas. Vai ser duríssimo. E só espero estar redondamente enganado.