O REGRESSO DE MEGA FERREIRA À POESIA

Imagem António Mega Ferreira
© Jornal Expresso 2017

António Mega Ferreira tem uma relação de enorme respeito com a poesia.

Disse-o em entrevista ao Expresso em outubro de 2017 que tinha deixado de escrever poesia (tinha escrito dois livros) porque «Tinha de ter a certeza que a minha poesia era boa. E não tenho».

Acrescentava mesmo que era mais exigente com a poesia do que com a prosa. «Claro! É a arte maior. É a arte da decantação. Digamos que em relação à poesia o meu grau de exigência é obsessivo, quase patológico. Não estou em paz com a minha poesia, e não estando em paz, o melhor é não publicar porque já sei o que me vai acontecer.»

E o que lhe acontecia? Pois, «Noites sem dormir, uma angústia terrível. A poesia é, de facto, a disciplina suprema. É um território que nem sei nomear. Como dizia Wallace Stevens, é aquilo que devia chegar à “transparência dos lugares”. É conseguir chegar abaixo do osso de qualquer coisa que não é osso. Aonde? Não sei.»

Pois bem, a boa, a excelente notícia é que António Taurino Mega Ferreira, nascido a 25 de março de 1949, voltou a publicar poesia. A má notícia é que fez apenas uma pequena edição de Autor, com uma tiragem de 50 exemplares, «com rigorosa distinção entre não publicar e editar para os amigos».

Mas estes «Padrões de Voo», onde a escrita continua elegantíssima, limpidíssima, burilada e onde as referências culturais se multiplicam, mostram um Mega claramente mais em paz com a sua poesia, como o poema «Quase uma Ode» ilustra:

Mafalda, é perigoso contemplá-la, / quando passa, aromática e normal; / como não deixa que o pano / lhe esconda as novidades, / é perturbante olhá-la, num amargo / da boca que se estende, imaginária, / pra beijá-la. / É perigoso contemplá-la, / ó Mafalda, se, ao passar, / lhe seguir o rasto sensual.» (…)