O MINISTRO DISSE A PALAVRA PROIBIDA

Desde os anos 80 que o mundo se tem inclinado a favor do deus mercado, conduzido pela revolução de Thatcher e Reagan e pela escola de Chicago, com Milton Friedman como ideólogo. Os mercados é que fazem a melhor afetação de recursos, os mercados premeiam as boas empresas e eliminam as más, os mercados penalizam os países que conduzem políticas económicas erradas e beneficiam os outros, os mercados são a melhor panaceia para tudo o que funciona mal. A cartilha é conhecida e apesar de desmentida a cada grande crise continua a larvar em muitas mentes.

Foi preciso um vírus microscópico para toda a gente se voltar desesperadamente para os Estados e para os respetivos serviços nacionais de saúde (os que os têm) porque os mercados e a medicina privada não resolvem esta pandemia. E estamos a iniciar a fase em que os Estados vão ser chamados a entrar no capital das empresas privadas para as salvar. A isso chama-se nacionalização, parcial ou total, mas nacionalização. Os neo-liberais devem estar a torcer-se nos seus confortáveis gabinetes com tal heresia, mas à espera que os Estados tirem as castanhas do lume para poderem voltar depois ao «business as usual».

Nessa altura, quando tudo voltar à normalidade, colocarão em marcha a máquina ideológica para protestar contra as enormes dívidas públicas que entretanto os Estados acumularão para salvar a saúde dos seus povos e das suas economias. E nessa altura as agnósticas agências de ratings virão dizer que a dívida pública dos países A, B e C é considerada «lixo», pelo que qualquer investidor para lhes emprestar dinheiro lhes deve cobrar taxas altissimas. Para as pagar, o país em causa deve pedir ajuda internacional e para a ter deve cortar salários, congelar carreiras, precarizar os laços de trabalho e despedir, despedir muita gente para as empresas voltarem a ganhar competitividade e serem rentáveis. Um filme já gasto.

Vem isto a propósito das 1400 empresas que já pediram para aceder ao processo de lay-off simplificado, segundo o qual os trabalhadores vão para casa a receber 75% do que ganham, dos quais 70% suportados pela Segurança Social e apenas 30% pelas empresas. Ora eu gostava de ouvir agora os nossos neo-liberais a defenderem que estas empresas devem fechar e a clamar contra estes apoios que são, digamo-lo alto e bom som, ajudas de Estado, essas ajudas tão invetivadas em tempos de normalidade. Mas, claro, agora o silêncio é ensurdecedor e de chumbo. Só abrirão a boca quando começarem a ver que a tempestade passou. Nessa altura voltarão a atirar pedras à administração central e local, que desenvolve um trabalho notável de apoio aos seus munícipes e aos seus trabalhadores. Até lá, abrigam-se todos debaixo das asas do Estado, de quem não param de dizer mal desde há quarenta anos.

O que é extraordinário é que entre estas 1400 empresas que estão a recorrer ao lay-off há várias que são ramos de multinacionais, que exportam grande parte dos seus lucros – mas os apoios que pedem é ao Estado português. Faz bem, contudo, o ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, em dizer, preto no branco, que quer defender todas as que, sendo estratégicas, são importantes para o país, quer em termos de criação de riqueza, quer de manutenção de postos de trabalho.

“Nós queremos preservar a continuidade do país e das atividades que sejam estratégicas. Seguramente vamos divergir, em comunidade, sobre o que são atividades estratégicas e quais são as empresas importantes, mas o Estado português tem ferramentas para nacionalizar empresas e usá-las-á se achar conveniente”, disse o ministro em entrevista à rádio TSF, repetindo aliás o que o ministro francês da Economia, Bruno Le Maire, já tinha admitido: as nacionalizações estão em cima da mesa no Eliseu.

E isto porque, segundo Le Maire, esta crise só é comparável à grande recessão de 1929. O panorama é devastador na economia gaulesa: setores como o turismo, hotelaria, restauração e organização de eventos apresentam quebras de atividade “entre 90% e 100%”. O setor automóvel sofre uma queda na faturação na ordem dos “80% a 85%” e “a indústria está a laborar a 25% da sua capacidade”. Em setores como o mobiliário, cosmética, mecânica, plásticos e têxteis a atividade reduziu-se em 80%. Também na construção o panorama é negro, com 80% das obras paradas.

Ora, mutatis mutandis, o mesmo se pode dizer de Portugal. O turismo e todas as atividades que eram impulsionadas por ele (aviação, hotelaria, restauração, compra de imobiliário e aluguer de curta duração, empresas de tuk-tuks e de organização de eventos) esfumou-se de um dia para o outro. Empresas estrangeiras ligadas ao setor automóvel estão a solicitar o lay-off (Autoeuropa, fábrica de Mangualde da PSA). O setor de construção está parado. E as exportações, com os mercados fechados, estão a colapsar.

Por isso, só há uma solução, aquela que ganhou as suas esporas de cavaleiro durante a recessão de 1929: ir ao armário buscar as receitas de Sir John Maynard Keynes e colocar o Estado como o grande motor da retoma económica, investindo pesadamente na economia, em particular no setor da saúde e em todos os que lhe estão ligados, desde a investigação ao desenvolvimento tecnológico, mas também nas empresas consideradas estratégicas e que sejam uma âncora para milhares de pequenas e médias unidades de produção.

Por agora, a tralha neo-liberal será guardada nos armários à espera dos dias de vingança. Esperemos que desta vez o mundo mude de tal maneira que tenham de esperar muitos anos antes de os seus defensores poderem levantar de novo a cabeça com desfaçatez.