O INSULTO HOLANDÊS AOS PAÍSES DO SUL

Áustria, Holanda, Dinamarca e Suécia recusaram liminarmente o plano de estímulo ao relançamento económico da União Europeia (UE) apresentado por Angela Merkel e Emmanuele Mácron. É um desafio ao eixo Paris-Berlim e a contra-proposta, divulgada este sábado, é um enorme insulto aos países do sul e uma irresponsabilidade grotesca, que vai colocar a Europa à beira do abismo.

 

Não é só a recusa do pacote dos 500 mil milhões ser distribuído essencialmente através de subvenções, posição que já era conhecida. São sobretudo os pressupostos em que assenta essa recusa. É que os quatro países, com a Holanda à cabeça, sustentam que o financiamento desse fundo por dívida comum “permitiria que as economias europeias menos disciplinadas e mais fracas beneficiassem indevidamente de um financiamento mais barato, graças às economias mais fortes dos países do Norte”.

 

É de uma baixeza sem nome este pressuposto. Sim, numa união monetária a mutualização da dívida dos países tende a aumentar as taxas de juro para os países mais fortes e a descer as taxas de juro para os países mais fracos. Mas o que está por trás do argumento é que foi de novo devido à indisciplina financeira dos países do sul que estes se colocaram outra vez em situação de grave risco, quando o que entra pelos olhos dentro é que esta crise económica tem profundíssimas razões na pandemia do coronavirus que atirou toda a União Europeia para uma recessão sem precedentes desde a II Guerra Mundial.

 

Portanto, sustentar subliminarmente mais uma vez que os madraços do sul se vão aproveitar dos países disciplinados e trabalhadores do norte porque andaram a gastar tudo em vinho e mulheres é de uma vilania sem limites, ainda por cima vindo da Holanda, um país que se constituiu como um enorme «off-shore» no centro da Europa, para onde drena as sedes das companhias de todos os países da União para aí pagarem menos impostos, sem que essa política traga aos holandeses nenhum peso na consciência nem nenhuma responsabilidade moral por drenarem recursos dos países do sul, enfraquecendo ainda mais as suas economias.

 

Mas o despudor, a baixeza e a vilania vão ainda mais longe quando os quatro países alertam também para eventuais “fraudes” que possam ocorrer com estas verbas, dando outra vez a entender que coisas destas – indisciplina financeira e fraudes com dinheiros comunitários – só acontecem a sul.

 

Bom, depois defenderem que o plano de relançamento económico não deve durar mais de dois anos e que os países que dele beneficiem devem assumir um firme compromisso de implementar reformas de longo alcance e de respeitar o quadro orçamentário imposto é o mesmo que dizer que a austeridade está de regresso e que a receita que tão maus resultados deu entre 2011 e 2015 é para voltar a ser aplicada, ignorando olimpicamente que as razões desta crise nada tem a ver com as daquele período. Mas o desejo de punição e de meter na ordem os bárbaros do sul brota por todos os poros desta declaração inqualificável.

 

Ora depois disto ou a senhora Merkel tem capacidade para obrigar estes rapazes a dobrar a cerviz ou o ressentimento e a dramática crise política, económica e social que se seguirá acabará mesmo por conduzir senão à implosão da Europa, seguramente a uma Europa muito mais enfraquecida e a caminho da irrelevância no século XXI.