O CORONAVIRUS ECONÓMICO

O ministro das Finanças, Mário Centeno, revelou ontem as contas ao impacto do Covid-19 na economia portuguesa: uma quebra do produto próxima dos 10% e um défice de 3% no mínimo. Nunca, nunca, nunca uma recessão tão pronunciada atingiu a economia portuguesa. Os seus efeitos sobre o tecido empresarial, sobre os trabalhadores e as famílias vão ser devastadores. Centeno não falou sobre isto, mas o desemprego deve crescer acima dos dois dígitos e a quebra de rendimento dos portugueses poderá ir dos 10% aos 30%. A única boa notícia é que, depois de uma queda da altura da torre mais alta do mundo, só é possível esperar que a economia comece a recuperar, embola lentamente, no segundo semestre. Centeno admite que dentro de dois anos estaremos ao nível de 2019. Será que foi contagiado pelo otimismo irritante do primeiro-ministro?

 

Há quatro mensagens essenciais na entrevista que o ministro das Finanças concedeu ontem à TVI. A primeira é que esta crise tem uma dimensão aterradora. Trata-se de um verdadeiro tsunami, representando perdas no PIB anual de 6,5% por cada mês de contenção na actividade económica como a que estamos a viver desde 19 de Março e um impacto orçamental entre 6 mil e 7 mil milhões de euros.

 

Para se ter uma ideia ainda mais precisa da dimensão da tragédia, refira-se que Centeno disse que no segundo trimestre deste ano a quebra irá ser “quatro a cinco vezes maior” do que a maior queda trimestral registada na anterior crise, em 2012, quando o PIB caiu 4,3% no segundo trimestre. Por outras palavras, no segundo trimestre de 2020 o PIB pode cair 20%, um número verdadeiramente aterrador.

 

Contudo, para o conjunto do ano, o ministro estima que a recessão não chegará aos dois dígitos. Só que as suas palavras deixam implícito que as suas previsões coincidem mais com o limite superior das de Francisco Louçã (recessão entre 5% e 10%) e do Instituto Superior de Economia (recessão entre 4% e 8%) do que com as do Banco de Portugal (recessão entre 3,7% e 5,7%).

 

Quanto às contas públicas, os impactos virão de três lados: da quebra de receita fiscal, do aumento da despesa para apoiar empresas, trabalhadores e famílias e sobretudo da travagem às quatro rodas da atividade económica, que terá reflexos muito significativos sobre o IVA, o imposto que mais receita canaliza para o Estado – mas também o IRC e o IRS terão quebras importantes. Feitas as contas com base nos números apresentados pelo ministro e lembrando que estava previsto um excedente orçamental de 0,2% para este ano, o país deverá chegar ao final de 2020 com um défice entre 3% e 3,5%, embora não seja de excluir que este valor venha a ser ultrapassado.

 

A segunda mensagem, já conhecida, é que a Europa está claramente dividida quanto à forma de sair da crise. O pacote de 550 mil milhões acordado no Eurogrupo é a água disponível imediatamente para apoiar o fogo – e mesmo assim, no caso da linha de crédito de 240 mil milhões de euros do Mecanismo Europeu de Estabilidade, ela só pode ser utilizada no setor da saúde ou em áreas correlacionadas com o combate à pandemia. Portugal pode aceder a 4 mil milhões, uma quantia obviamente irrisória para quem necessitou de 78 mil milhões de ajuda internacional na crise de 2011.

 

Mas quanto à reconstrução da casa, Holanda, Finlândia, Áustria e Alemanha não querem compartilhar os custos. Não haverá mutualização da dívida. Cada um que se vire por si, é a mensagem. Por causa disso e do se passou na crise das dívidas soberanas são os países mais endividados aqueles que puseram em prática pacotes de ajuda às suas economias mais reduzidos porque não querem de novo ser penalizados brutalmente pelas agências de rating e pelos mercados quando a pandemia passar. Só que isso também penaliza estes países – entre os quais se incluem a Grécia, Portugal, Espanha e Itália – que recuperarão muito mais lentamente e agravará o fosso económico entre o norte e o sul da Europa, além do que cavará mais fundo o ressentimento entre europeus.

 

Terceira mensagem de Mário Centeno: no que toca à defesa de empresas estratégicas nem ele nem os seus colegas europeus colocam de lado qualquer opção. E uma delas passa pela nacionalização de empresas que possam ser fundamentais para o emprego, para as exportações e para a criação de riqueza e que estejam em sérios riscos de colapsar devido à travagem das economias europeias.

 

Finalmente, o ministro recusou-se mais uma vez a responder à ultima questão: fica ou não no Governo? É lamentável que Mário Centeno alimente esta novela. Toda a gente já percebeu que, antes do coronavirus, ele estava de saída levando todos os louros consigo: menor défice de sempre da economia portuguesa em 46 anos de democracia (ou mesmo um excedente em 2019, segundo as últimas contas), redução da dívida de 132% do PIB para 117%, a saída do Procedimento por Défice Excessivo e do rating de lixo da dívida portuguesa, os maiores crescimentos do PIB desde o início do século, o retomar da convergência com a União Europeia, coisa que não acontecia há duas décadas e meia, recordes nas exportações e no turismo – e tudo isto com a reposição de salários e pensões e aumento do salário mínimo. Pelo meio foi considerado o Ronaldo dos ministros europeus das Finanças e eleito presidente do Eurogrupo. É um brilhantíssimo cartão de visitas – e sair antes da crise seria uma saída em glória.

 

Só que, chegada a crise, também toda a gente já percebeu que o ministro não se pode ir embora. O general não abandona o comando no meio da batalha. E por muito que lhe custe vai ter de ficar até esta situação ser debelada. Por isso, alimentar este tabu não joga a favor dele.