O COMPROMISSO DOS BANQUEIROS

O Presidente da República reuniu com os banqueiros e os banqueiros fizeram um comunicado cheio de boas intenções, mas onde uma mão está cheia de nada e a outra de coisa nenhuma.

Lamento dizê-lo por conhecer há muito tempo alguns dos presidentes dos bancos que estiveram reunidos por videoconferência com o Presidente da República: Paulo Macedo (CGD), Miguel Maia (BCP) e António Ramalho (Novo Banco). Sei que são pessoas competentes e íntegras. Sei que se preocupam com o país. Mas sei também que estão conscientes do que aconteceu há muito poucos anos com a banca portuguesa; e sei que tem acionistas a quem devem explicações. A sua autonomia não é comparável aquela que, por exemplo, Ricardo Salgado e Jorge Jardim Gonçalves tinham quando presidiam ao BES e ao BCP. Por isso não estranho o comunicado elaborado em nome destas três instituições, mais do Santander e do BPI, um comunicado diplomático e sem nenhum compromisso verdadeiramente importante.

Vão apoiar a economia portuguesa? Sim, uma boa declaração de princípios. Vão manter o maior número de agências abertas? Bom. Vão implementar as moratórias e acelerar a chegada de fundos às famílias e às empresas, «não prescindindo do necessário rigor»? Hum… Suspeita-se o que isto quer dizer. Vão continuar a apresentar novas soluções de financiamento? Ora que bom. Vão procurar e implementar soluções mais adequadas para portugueses e estrangeiros que vivam cá? Suponho que isso é «business for usual».

Onde está o compromisso de não cobrar taxas de juro entre 3% e 4% às empresas? Onde está o compromisso de definir um prazo (uma semana, duas, uma mês, o que fosse, nem mais um dia), para libertar os fundos para empresas e famílias? Onde está a afirmação que não vão pedir garantias pessoais aos responsáveis das pequenas, médias e micro empresas para lhes emprestar dinheiro? Onde está o desmentido de que não querem um aval do Estado a 90% ou 100% para financiarem a empresa com os fundos que o próprio Estado coloca à sua disposição? Onde está a assunção definitiva que não haverá distribuição de dividendos aos acionistas este ano, algo reclamado por vários líderes políticos, nomeadamente o presidente do PSD, Rui Rio? Onde se assume, preto no branco, que não vão fazer negócio com os dinheiros públicos destinados a atenuar os efeitos da pandemia? Sobre tudo isto nada. Nada, nada, nada. Até dói. E é muito triste.

O que nos reconduz ao velho aforismo: os banqueiros são os senhores que te dão um guarda-chuva quando está sol e to tiram logo que está a chover. E o que vos digo é que neste momento chove a cântaros e não se prevê que pare tão cedo.