NÃO SE PODE MANDAR A MOODY’S PARA AQUELE SÍTIO?

A agência de rating Moody’s mudou ontem de estável para negativa a sua perspetiva sobre a banca portuguesa. É inadmissível, intolerável e repugnante esta decisão tão rápida da Moody’s, apenas mês e meio depois da pandemia ter atingido em cheio a Europa. É que esta celeridade contrasta com o facto da Moody´s ter levado longuíssimos sete anos e três meses a retirar a dívida de Portugal de lixo durante a crise das dívidas soberanas.

 

A Moody´s alterou a perspetiva da banca de quatro países (Noruega, Finlândia, Hungria e Portugal) de estável para negativa. Justificação: «reflete as nossas expectativas de que estes quatro países experimentem uma forte contração do crescimento económico». Sim? Mas qual é o país que não está a sofrer uma forte contração do crescimento económico? Espanha tem a mesma recessão prevista que Portugal (8%) e Itália pode mesmo chegar aos -9,1%. Mas os sistemas financeiros destes países não foram analisados. Nem o grego, nem o alemão (recessão de 7%), nem o francês (recessão de 7,2%). Porquê? Qual a justificação para a Moody’s escolher um único país da Europa do Sul, Portugal, para fazer esta análise, a que juntou a República Checa, Polónia, Áustria, Irlanda e Eslováquia, além dos outros três países atrás referidos, todos do norte e centro da Europa? Que intenção está por detrás desta escolha? Acaso? Coincidência? Com a Moody´s não há coincidências.   

 

A Moody’s foi a primeira das três grandes agências de rating a classificar como lixo a dívida soberana de Portugal de longo prazo – e foi a última a reverter essa decisão. No dia 5 de Julho de 2011 apressou-se a colocar esse anátema sobre nós; e só em 12 de outubro de 2018, quando a melhoria da economia portuguesa era já visível em todos os indicadores desde 2015, é que reverteu a decisão. Foram sete anos e três meses. Mas agora, apenas ao fim de mês e meio de pandemia, coloca-nos de novo o ferrete, com o argumento de que «a rentabilidade [da banca] enfraquecerá devido ao aumento das provisões para perdas com empréstimos e ao crescimento reduzido de [novos] empréstimos»? Mas qual é o sistema bancário europeu, americano, canadiano ou japonês onde isso não vai acontecer no quadro desta brutal recessão que todo o mundo enfrenta?

 

No atual cenário, as instituições supranacionais, com a Comissão Europeia à cabeça, deveriam proibir as agências de rating de darem notações sobre países e sobre sistemas financeiros. Cada vez que o fizeram isso agravará ainda mais a recessão e tornará mais penosa, mais difícil e com maior dor social os caminhos a percorrer para sair dela, sobretudo para os países mais fragilizados do ponto de vista da dívida. Mas como provavelmente não haverá coragem para fazer isso, só apetece descarregar a nossa fúria e mandar a Moody’s para aquela parte.