MEIO MILHÃO DE TRABALHADORES EM RISCO

Trinta dias após a chegada em força do coronavirus a Portugal já há mais de meio milhão de trabalhadores que estão a ganhar dois terços do que ganhavam há um mês e que tem sobre si o cutelo do desemprego; e quase 32 mil empresas que estão em risco de fechar portas para sempre, a maioria podendo sobreviver durante três meses mas não muito mais do que isso. Há grandes empresas que já recorreram a este sistema, com a TAP à cabeça, mas a esmagadora maioria são pequenas e micro empresas. É um balanço devastador do que está a acontecer e da tragédia que temos pela frente, se não surgir rapidamente uma solução científica para erradicar esta pandemia.

O drama não é só nosso. Nos Estados Unidos, num período normal há meio milhão de pessoas a recorrer ao seguro de desemprego. Nas duas últimas semanas  esse número disparou para dez milhões de pedidos. É algo inacreditável e que mostra a devastação que o vírus está a produzir em todas as economias.

Por cá, passou cerca de um mês desde que o Governo tomou as primeiras medidas face à pandemia do coronavirus, com o encerramento de escolas e a proibição de grandes eventos de todo o tipo à cabeça. Ao mesmo tempo, foi dada às empresas a possibilidade de entrarem no chamado sistema de lay-off, que permite a redução temporária do horário normal de trabalho ou a suspensão do contrato de trabalho, com a diminuição para dois terços do salário dos trabalhadores (70% pago pela Segurança Social e 30% pela entidade empregadora). Por troca, nestas empresas estão proibidos os despedimentos. Pois bem, num mês há 31.914 empresas que recorreram a este mecanismo, abrangendo 552 mil trabalhadores, ou seja, cerca de 10% da população ativa em Portugal. O que daqui se conclui é que as empresas estão a adaptar-se rapidamente ao colapso da procura nos mercados interno e externo. A interrogação que fica é por quanto tempo é possível manter esta situação.

Com efeito, segundo o balanço do Governo reportado pela Agência Lusa, a maioria das empresas candidatas ao apoio laboram nas áreas de alojamento e restauração (setores particularmente atingidos pela crise devido à travagem brutal dos fluxos turísticos), reparação de veículos e indústrias transformadoras. E a estes setores irão juntar-se seguramente os da aviação e tudo o que tenha a ver com o setor imobiliário, quer na construção quer no aluguer, bem como a área de artes e espetáculos, cinemas e teatros incluídos, além da indústria desportiva, com o futebol à cabeça. Igualmente o setor da comunicação social, em particular jornais e rádios, corre sérios riscos de sofrer uma hecatombe. Mas infelizmente, com muito poucas exceções, ninguém está a ser alvo, de um ponto de vista económico, ser atingido por este tsunami.

Mais grave mas nada surpreendente é o facto da maioria dos pedidos vir de microempresas, com 10 ou menos trabalhadores (cerca de 74%), e de pequenas empresas, com menos de 50 trabalhadores (cerca de 20%). Lisboa e Porto congregam 14 mil pedidos, sendo os outros distritos com relevância Braga, Aveiro e Faro.

Enfim, o que se pode dizer para já é que o Governo agiu rapidamente e bem, ao simplificar o regime de lay-off mas ao proibir despedimentos para quem a ele recorra. Contudo, a pergunta que fica é durante quanto tempo é que isto é sustentável? Durante quanto tempo é que uma empresa aguenta esta situação, sobretudo as mais pequenas, a pagar os custos fixos (salariais e outros) sem que do lado da receita entre dinheiro? E durante quanto tempo é que os cofres públicos estão em posição de acorrer a estas empresas?

O Banco de Portugal estima, no seu cenário mais benévolo, que o desemprego possa chegar aos 10% este ano. Pois bem, ao fim de um mês já tem candidatos que cheguem para atingir esse cenário, se todos os trabalhadores agora em lay-off passarem mesmo ao desemprego. Resta-nos aguardar que algo inesperado afaste rapidamente este pesadelo que nos caiu em cima.