E ELES PREOCUPADOS COM O DÉFICE

Bandeira União Europeia

Bom dia, meus amigos. A diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, advertiu ontem numa teleconferência com o G20 que a recessão mundial em consequência da pandemia de coronavírus pode ser pior do que a registada após a crise financeira de 2008. Agradece-se à sra. Georgieva o aviso, que começa a ser evidente para todas as pessoas que lidam com as questões económicas. Todas? Não, nem todas.

Os ministros das Finanças da União Europeia (UE), reunidos também ontem em videoconferência, concordaram com a inédita ativação da cláusula de derrogação do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC), para permitir aos Estados-membros uma resposta eficaz à pandemia de covid-19. Descodifique-se: podem meter dinheiro em força na economia, para salvar empresas e ajudar famílias, sem se preocuparem com o cumprimento do défice. E o que disseram eles? Saudaram a decisão mas (e qualquer frase só é importante a partir do «mas») sublinharam que todas as ações devem ser “pontuais, temporárias e especificamente orientadas”, apontando que permanecerão “totalmente comprometidos com o respeito do Pacto de Estabilidade e Crescimento”.

O que isto quer dizer é que 1) a ortodoxia orçamental continua a ser dominante entre os ministros europeus das Finanças, mesmo perante a situação excecional que se vive; 2)  que os ministros pensam que o caso se resolve com alguma dinheiro em cima do problema mas sem que os défices derrapem muito para lá dos 3%; e que 3) não querem admitir que esta crise é completamente diferente da de 2008 e muito pior por várias razões. A primeira é que atinge todo o mundo, ao contrário da crise financeira que se centrou na Europa e nos Estados Unidos; a segunda é que nessa altura a China estava a crescer acima de dois dígitos por ano e isso permitiu amortecer o choque da crise; a terceira é que, por essa razão, o comércio mundial manteve-se a crescer em bom ritmo; em quarto, isso permitiu a muitas empresas (vide o caso português) reorientarem a sua atividade do mercado interno para as exportações e assim evitarem fechar portas e despedir. Por outras palavras, nessa altura tivemos uma crise da procura mas não da oferta. Ora o que está acontecer neste momento na Europa, de uma forma absolutamente brutal, é uma crise da procura mas também uma crise da oferta, com fábricas a encerrarem umas a seguir às outras, com o pequeno comércio e os serviços a fecharem portas, com tudo o que é evento desportivo ou musical a ser completamente erradicado dos espaços públicos. Ou seja, empregadores e consumidores, países do norte e do sul, estamos todos a ser arrastados para o fundo por esta pandemia.

O Bundesbank, o banco central alemão, já prevê uma recessão na Alemanha. A Itália terá seguramente uma recessão. Espanha também não deve escapar, bem como o Reino Unido e França. Toda a economia europeia se vai afundar drasticamente em 2020, com as falências e o desemprego a dispararem. Apesar disso, os ministros europeus das Finanças vem dizer que as medidas devem ser “pontuais, temporárias e especificamente orientadas”. Não, não serão medidas pontuais nem temporárias porque esta crise não é pontual, nem temporária. É mundial, avassaladora e vai arrastar-se no tempo. Por isso, as medidas que terão de ser tomadas vão durar no tempo e serão essenciais para o drama não ser ainda maior. Por isso, senhores ministros, esqueçam o raio dos défices. A economia europeia está a paralisar. A casa está a arder de uma forma devastadora. Não é altura de pensar se o carro dos bombeiros vai conseguir apagar o fogo sem gastar muita água ou sair deste combate sem riscar a pintura e sofrer profundas amolgadelas.