COMO APOIAR O JORNALISMO

O Governo decidiu libertar 15 milhões de euros para apoiar o setor da comunicação social, que vive dias de extrema dificuldade. O gesto é positivo mas fica muito aquém das necessidades. Mas neste combate para salvaguardar um dos pilares da democracia, a iniciativa privada também deve ser convocada.

Antes da pandemia provocada pelo Covid-19, a comunicação social tradicional já estava em crise há pelo menos uma década. Um declínio lento mas inexorável, assente na quebra de leitores, de ouvintes e de espeCtadores; na fuga da publicidade para os grandes operadores virtuais, como o Google o Facebook; e na concorrência das redes sociais e da desinformação.

Esta crise provou a necessidade imperiosa de uma informação credível, isenta, rigorosa e atempada, produzida por jornalistas sujeitos ao código deontológico da profissão e a hierarquias (editores, diretores) que fazem essa informação passar por vários crivos antes de ser disponibilizada. Houve um aumento claro de procura de informação nos meios tradicionais, mas nem por isso deixaram de medrar na redes sociais as mais controversas «informações», sobre remédios, métodos de tratamento ou teorias de conspiração, nenhuma delas comprovada mas que alastram como fogo na pradaria.

Como se combate este tipo de desinformação que, não nos iludamos, é um cancro que corrói as democracias? Pois com mais e melhor jornalismo, produzido pelos meios tradicionais e pelos jornalistas que se prepararam para exercer a profissão e não por aprendizes de feiticeiro que pensam que podem ser jornalistas por escreverem meia dúzia de patacoadas nas redes sociais, umas que julgam ser verdade, outras em que acreditam e outras completamente inventadas.

É por isso que desta crise resulta claro que o jornalismo, o bom jornalismo, o grande jornalismo, nas agências, nas rádios, nas televisões, nos jornais,  é essencial à vitalidade da democracia e ao controlo dos diversos poderes que existem nas sociedades, sejam eles políticos, sociais, culturais ou desportivos.

E se há coisa que voltei a sentir desde o início desta pandemia foi orgulho por pertencer à tribo dos jornalistas. Os jornalistas portugueses deram uma extraordinária resposta a esta crise, informando, esclarecendo, analisando, dissecando, divulgando e tornando acessível e percetível todos os aspetos da pandemia e a forma como os cidadãos devem proceder nestes tempos extraordinários.

Contudo, também ficou claro que as dificuldades de todos os órgãos de comunicação social são agora ainda maiores que no início da crise. Os pedidos de moratórias, de descontos ou de perdões de dívida dirigidos aos fornecedores aumentaram exponencialmente. E isso tornou ainda mais evidente a importância de existirem órgãos de comunicação social públicos, detidos pelo Estado, como a Lusa, RTP e RDP.

Todavia, a diversidade e pluralidade de pontos de vista não se esgota nos órgãos públicos de comunicação social. Televisões, rádios e jornais privados são essenciais para a vitalidade do jornalismo e para o bom funcionamento das democracias. Ora se o Governo entende – e bem – que por essa razão é necessário apoiar as empresas privadas do setor com um pacote de 15 milhões de euros, também fica claro que 1) esse apoio não é suficiente 2) que igualmente os investidores privados devem ser chamados a participar nesse esforço.

Em Portugal há excelentes exemplos disso. O Público, um jornal incontornável no panorama editorial nacional, foi fundado por Belmiro de Azevedo e é suportado pelo Grupo Sonae. A Pordata, um portal de informação estatística importantíssimo para todos os que necessitam de dados económico e sociais, foi criado por Alexandre Soares dos Santos e pelo Grupo Jerónimo Martins. O Observador nasceu do investimento de um conjunto alargado de  investidores privados. O Jornal de Negócios, o I, o Sol e o Jornal Económico também arrancaram com base em investidores privados.

Ora na sociedade portuguesa existem outros grupos com solidez e capacidade para apoiarem projetos jornalísticos independentes. Não por serem grandes negócios. Mas por serem o contributo cívico desses grupos para uma sociedade mais livre, mais justa e mais plural. Aguardemos que isso venha a acontecer.