A RECUPERAÇÃO SERÁ LENTA E COM DOR

Há vários economistas nacionais e estrangeiros a admitirem uma recuperação rápida da economia mundial se o regresso à normalidade se começar a verificar no segundo semestre do ano. Infelizmente para todos nós estão errados, pelo menos no que toca à Europa em geral e a Portugal em particular. A recuperação será lenta, dolorosa e difícil.

 

Não se pode olhar para a economia norte-americana e decalcar o que lá se pode passar em 2021 com o que acontecerá no Velho Continente. Em primeiro lugar, os Estados Unidos dispõem de um fortíssimo mercado interno, que sustenta em grande parte o crescimento económico. Em segundo, a rapidez com que as autoridades tem estado a injetar montanhas de dinheiro na economia tem sido muito maior que na Europa. Em terceiro, os triliões de dólares que tem sido despejados sobre empresas e particulares é muito superior às linhas de crédito já anunciadas pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Eurogrupo. Em quarto, a eficácia dos apoios é também substancialmente superior: os americanos estão a receber em casa um cheque de 1200 dólares, porque fazer um corte nos impostos levaria meses para chegar às pessoas. Na Europa, não há dinheiro a fundo perdido para ninguém e o acesso aos financiamentos passa pelo crivo burocrático das administrações públicas e dos bancos. E em quinto, para além da rápida descida das taxas de juro pela Reserva Federal (FED), não tenhamos dúvidas que se for necessário colocar as rotativas a trabalhar para imprimir dólares isso será feito sem hesitações, algo impensável na Europa.

 

Apesar de tudo isso, o FMI estima uma recessão de 5,9% para os Estados Unidos este ano (zona euro: -7,5%), seguida de uma recuperação em 2021 de 4,7% (zona euro: 4,7%). O que quer dizer que os Estados Unidos terão uma recessão menos profunda e uma maior recuperação, porque partirão de uma base maior. E são precisamente as previsões do FMI, que assenta no tal pressuposto bastante incerto no momento de o segundo semestre marcar um regresso à normalidade sem uma segunda fase da pandemia, que demonstram que a recuperação  será lenta e difícil. Com efeito, para as economias avançadas, as taxas de crescimento em 2021 serão todas inferiores à dimensão das recessões este ano, isto é, em 2021 ainda não estaremos nos patamares de atividade económica e de riqueza produzida que existiam antes da crise.

 

Acresce que a turbulência 1) nos mercados de matérias-primas, com o petróleo abaixo dos 30 dólares, o que provocará enormes convulsões nos países produtores; 2) nos mercados de capitais, que se apresentarão extremamente voláteis; 3) no turismo, cujos fluxos colapsaram; 4) no transporte aéreo, que já está a sofrer violentamente por tabela; 5) no comércio mundial, não só devido às guerras comerciais entre os Estados Unidos e vários blocos como devido à fortíssima quebra da procura em todos os mercados – tudo isso levará a enormes tensões geopolíticas, económicas e sociais, estando criado portanto um pano de fundo muito pouco propício a um regresso rápido ao mundo em que vivíamos antes do coronavirus ter entrado nas nossas vidas.

 

Infelizmente, Portugal vai ser um dos países mais atingidos, por duas razões principais. A primeira é que, apesar da boa evolução dos últimos anos, continua com um nível muito elevado de dívida em percentagem do PIB, o que reduz muitíssimo a margem de manobra para fortes investimentos públicos na recuperação da economia no pós-pandemia. A segunda é que um dos maiores motores da economia nos últimos anos, com efeitos benéficos e potenciadores em vários outros setores, era o turismo, que pura e simplesmente colapsou e não regressará nem tão cedo nem com a mesma dimensão que tinha atingido (14,6% do PIB, 9,4% do emprego, 416 mil pessoas e 8% do Valor Acrescentado Bruto). Dos 36 países da OCDE, Portugal é o que mais depende do turismo – e, para nossa desgraça, a Espanha é o segundo. Ora como Espanha é o principal destino das nossas exportações, cerca de um quarto do total, também por aí viremos a ser afetados.

 

Das quase 70 mil empresas que já recorreram ao lay-off, envolvendo 930 mil trabalhadores, uma parte muito significativa está precisamente ligada direta ou indiretamente ao setor turístico. A probabilidade de muitas destas empresas fecharem definitivamente e de milhares destes trabalhadores ficarem sem emprego a curto prazo é enorme. Dar a volta a isto com a menor dor social possível passa por um fortíssimo programa de recuperação da economia europeia, que tem de ser suportado por financiamentos da União, cujo risco deve ser partilhado por todos. De outro modo, os países que já estavam altamente endividados não terão condições para colocar em prática esses programas porque os mercados lhes exigirão taxas de juro proibitivas para lhes conceder financiamentos e os obrigarão a novos e draconianos planos de austeridade. É isso que está em jogo no dia 23 no Conselho Europeu.